Rudolf Allers frisa, com veemência, que a primeira mentira real que a criança conta a pais ou educadores é proveniente do medo. Em alguns textos desta página (Vivências de depreciação corporal na infância / Sobre a vida espiritual da criancinha / Sobre a Severidade e autoridade na educação infantil etc.) explanei como a depreciação, ou seja, a consciência da criança do desvalor de si, ainda que tal consciência não se manifeste por meio de um discurso lógico-formal, gera, desde o início, uma deformação caracterológica na personalidade do infante. Ou, na linguagem de Alfred Adler, um estilo de vida egocêntrico, por meio do qual haverá compensação neurótica quando o futuro adulto tiver de lidar com os problemas fundamentais da vida humana, oriundos da ocupação-vocação, das relações sociais e amizade e, por fim, do sexo, amor e casamento.
Quando a criança se percebe, ainda que de modo aperceptivo (uma percepção não captada de modo consciente), desvalorizada, seja através de uma severidade excessiva em sua educação, seja através do excesso de regras imposto pelos pais, seja através de castigos considerados incompreensíveis por ela, seja através da dor causada pela negligência ou mesmo por debilidades físicas e orgânicas, começa a operar aquilo que Adler chama de compensação como conduta base de seu caráter, por meio da qual, de algum modo, a criança buscará uma superioridade fictícia a fim de mitigar o desvalor de si.
A mentira surge justamente aí. Se a vivência infantil – naturalmente marcada pela insegurança e incerteza – desenvolver-se sob a percepção do medo, começará a criança a mentir. Depreciada do valor de si, sua vontade de poder, inerente à natureza humana, tenderá a autoafirmar-se de modo oblíquo. Isto quer dizer o seguinte: a criança tentará compensar o desvalor de si pela busca egoica de poder – iniciando, assim, um estilo de vida (caráter) calcado num objetivo de mera ficção de superioridade pessoal, uma vez que os adultos são temidos e, simultaneamente, invejados por ela. Sabemos que a percepção da criança em relação ao adulto é de considerá-lo um ser onipotente. E ela buscará alcançar tal onipotência por meio de artifícios distanciados do verdadeiro sentido de comunidade, conforme explana Alfred Adler.
Nessa tentativa de superar o adulto temido e invejado, a mentira da criança pode ser delituosa, numa forma de esconder a própria vontade de poder de tal adulto por meio do acobertamento das ações proibidas que realizou. Claro, em primeiro lugar, a criança faz o proibido pelo simples fato de que esqueceu que é proibido; todavia, depois, conforme a vivência de depreciação de si se acentua, ou quando a vontade de poder não é, amorosamente, ordenada pelos pais e educadores, a criança começa a fazer o proibido porque é proibido. Aqui temos mais claramente uma vontade de poder cuja autoafirmação desenvolve-se baseada na desordem.
Por que isso acontece, em tão tenra idade? Porque fazer o proibido não é apanágio unicamente das crianças, senão do homem, em geral. Escreve Allers: “Crianças, jovens e adultos acham muitas vezes prazer em atos que não seriam, em si mesmos, agradáveis, se não estivesse sob proibição. Os escolares fazem tudo o que podem, apenas por ser proibido”. Em razão disso é que, muitas vezes, quando os pais retiram restrições aplicadas às ações dos filhos, muitas vezes deixam este de fazer o ato delituoso.
Entretanto, o que atrai o homem a fazer o proibido? A resposta é constrangedora, porque simples. Ela já foi dada em praticamente nos miríficos contos de fada: “Tu podes viver eternamente feliz dentro deste palácio de cristal. Aqui, todos os gozos te são permitidos e podes tudo fazer – exceto...”
Isto se dá porque qualquer proibição, no fundo, significa uma limitação da vontade de poder. O homem, pelo orgulho que nos é transmitido de herança em decorrência da desobediência original de nossos primeiros pais, sofre fundamente quando proibições lhe são impostas.
Transgredimos a Lei Moral porque, pela infração, pomo-nos acima Daquele que instituiu a Lei. Julgamo-nos mais poderoso do que o Legislador, afirmando assim nossa vontade de poder ferida e eriçada. Por isto, como disse acima, basta que os pais suspendam uma proibição para que o ato delituoso perca inteiramente seu poder de atração sobre o transgressor. Ressalta Rudolf Allers: “Fazer o proibido representa sempre, portanto, um triunfo secreto (embora fictício), uma vitória sobre o proibidor, uma prova de força e grandeza próprias. Também todo pecado, como diz Santo Agostinho, é sempre uma tentativa do homem para elevar-se acima de Deus”.
Allers pontua claramente que a mentira aparece, muitas vezes, como serva de uma vontade de poder transviada. Transgredir a Lei, então, é ato derivado da vontade de poder desordenada; contudo, é comum que a transgressão gere medo – e daí surge este tipo específico de mentira, demasiado próprio da infância, como uma forma de evitar a punição. Quanto maior for a experiência de depreciação do valor de si da criança, mais ela tenderá, pela vontade de poder, a autoafirmar-se por meio de superioridade fictícia, a fim de compensar o desvalor de si por meio da transgressão às leis e, em consequência, pelo medo derivado da mesma transgressão, mentir no intuito de evitar a punição, o que lhe intensificaria a própria depreciação de si.
