Recordo-me de quando, em consulta, a esposa, muito azeda, disparou: “Esse cara acha que tenho que estar disponível para sexo a seu bel-prazer. Só faço quando estou interessada”.
Com brandura, admoestei-a: “Amanda (nome fictício), para começo de conversa, é injusto que você se refira a seu marido chamando-o “esse cara”. Não é correto reduzi-lo a qualquer estranho com o qual você lida diariamente. Isto é ofensivo. Depois, o seu corpo é propriedade dele, assim como o dele é propriedade sua.”.
Há dois graves problemas, aqui. O primeiro consiste em uma falta habitual de reverência de um para com o outro, a qual se instalou no relacionamento; o segundo é que, no matrimônio, conforme o casal cresce em amor, as intenções do ‘eu’ deveriam progressivamente tender ao bem do outro pelo esquecimento de si. O egoísmo sempre instilará o veneno da mágoa, do rancor, na vida conjugal. A irreverência é a constante marca dos casamentos infelizes, pois deriva de alguém cujas atitudes são ainda demasiado autocentradas, e que vê tanto no cônjuge quanto no mundo de pessoas, animais e coisas instâncias que deveriam submeter-se à sua própria satisfação pessoal.
Pelo contrário, a reverência é a virtude do indivíduo que habitualmente se permite confessar que as outras pessoas, assim como animais e até mesmo os objetos que nos servem, possuem valor e dignidade próprios. Os outros seres humanos, porque são imagem e semelhança de Deus e neles posso ver mais do que um semelhante, senão também um amigo; os animais, uma vez que são a Sua criação e nos servem muitas vezes de símbolos para que compreendamos movimentos do nosso espírito; e os objetos, não só porque servem a nós, facilitando-nos a vida, mas também porque são um constante lembrete da gratidão que devemos aos demais, a qual deve ser retribuída por atos de serviço à sociedade. Por exemplo: não foi eu quem fez este site no qual publico meus textos, não foi eu quem confeccionou a cadeira sobre a qual me sento para escrever, e assim por diante.
Um espírito que trata a tudo com irreverência se recusa a reconhecer o valor intrínseco daquilo que o rodeia. Somente ele, a princípio, é portador de valor. Porém, como o “eu é somente eu diante de um tu”, o valor só é valor pelo reconhecimento de outros valores. O próprio irreverente, então, se amesquinha a si mesmo e indubitavelmente sofrerá pela consciência de desvalor de si, a qual poderá, de muitos modos, ser compensada neuroticamente.
Muitos casais, esquecidos da reverência que devem um ao outro, submetem o cônjuge a tristes experiências de depreciação do valor de si. É o marido extremamente bem-humorado com os de fora, mas carrancudo, silencioso, impaciente e amargo para com mulher e filhos; é a esposa que, ao ir para o trabalho, se perfuma, se besunta de cremes, usa das melhores roupas, mas que é incapaz de perfumar-se e de usar uma roupa minimamente atraente para ter intimidade com o marido.
É como se ao cônjuge, pelo coabitar cotidiano, não mais se devesse a reverência necessária. Todavia, se pararmos para pensar, é preciso que seja o contrário: aos de dentro, toda a reverência; aos de fora, um respeito baseado na noção de que também possuem valor e dignidade próprios. Tal atitude irreverente em relação ao cônjuge justifica aquele provérbio que diz que o excesso de familiaridade gera desprezo. A atitude de irreverência é conspícuo sinal, como dito acima, de autocentrismo arrogante, movimento espiritual de alguém que, por assim dizer, “já pescou o seu peixe”.
Quando fisgamos, o coração palpita, cheio de admiração... que será que emergirá das águas? Finalmente a captura revela o que a coisa é. Observamo-la por um tempo, encantados, logo todavia sobrevém o esquecimento da admiração inicial, pela habituação. Somente a reverência, este constante confessar do valor intrínseco do companheiro de vida, que sustenta no coração humano a admiração pelo mistério do outro. Se se perde a reverência é porque se perdeu a noção do outro enquanto mistério. E neste mundo pós-moderno parece que não se tem reverência por mais nada, nem pela sexualidade, nem pelo casamento, nem por Deus, nem pelos mistérios da liturgia e dos sacramentos, nem pelo mistério da vida e da morte, nem pelo mistério da pessoa humana...
É pela falta de reverência que minha paciente chamava ao marido de “esse cara” e reduzia a dimensão da sexualidade ao arbítrio próprio, incapaz de compreender que a finalidade do sexo não é a satisfação pessoal, mas um meio de demonstrar amor ao outro através da entrega total de si. O fruto do sexo é a alegria de duas almas que se presenteiam reciprocamente, doando-se a si pelo bem do outro. E isto só pode ser realizado num espírito de reverência.
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A REVERÊNCIA ENQUANTO ABERTURA AO MISTÉRIO DO OUTRO
No texto, defendo que a reverência sustenta o amor conjugal, combatendo o egoísmo e tornando a sexualidade uma entrega mútua.

Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento clínico individual. Casos de ansiedade, depressão, luto ou trauma devem ser acompanhados por profissional qualificado. CRP 08/45012.