Nós, psicólogos, pelo ofício de profissão, recebemos diariamente a graça de Deus de sermos testemunhas de precioso tesouro – a intimidade de outros corações. Precisei começar a ver a coisa deste modo, para deixar de sentir-me um inconveniente bisbilhoteiro da privacidade alheia. E aqui já vai uma lição importante que tive de aprender, a qual desejo que você, leitor, também a assimile em sua vida: se deseja discernir quais são os seus deveres, olhe para as graças recebidas, pois cada uma delas é, antes de tudo, um dever contraído.
Pela graça de testemunhar intimidades que não me dizem respeito, tenho evidentemente o dever de preservá-las, sob o sigilo da profissão. Este é, digamos assim, o aspecto privado do dever. Em contrapartida, há o aspecto público – tenho o dever de abstrair, dos testemunhos íntimos, o universal do particular, de modo que minha experiência profissional possa ser acessada por aquelas pessoas que jamais fariam terapia, no intuito de, se possível, também ajudá-las. E como a base da terapia é a confiança, julgo coerente tratar de modo breve sobre essa realidade muitas vezes mal compreendida.
Volta e meia, em consulta, pranteia a esposa: Guilherme, perdi a confiança em meu marido. Em seguida, já sei o que se seguirá: com a perda da confiança, vem a confissão da incapacidade de sentir admiração pelo pobre diabo do desacreditado marido. O mais curioso é que o tempero da confissão é sempre o elemento da admirável surpresa, a qual se manifesta em queixumes lamurientos, junto com uma enraizada e errônea noção de que o sustentáculo do relacionamento é a admiração que se sente pelo outro. Claro, já ouvi este tipo de queixa dos maridos, porém é mais comum eu ouvi-las das esposas. Porém, ambos os sexos estão munidos do apanágio de mistificar tanto o que admiram quanto o que menosprezam.
Qual a raiz do sofrimento pela perda da admiração, pelo menos em termos gerais? O mau e velho amor-próprio. Quando o cônjuge me vem em consulta dizer que perdeu a confiança no outro e, por conseguinte, a admiração, eu sempre pergunto: “Quanto da confiança e da admiração foram perdidas?”. E a pessoa, quase sempre, responde: “Toda”. E aqui reside o problema. Quem ensinou que devemos pôr toda nossa confiança e admiração no outro, mesmo no cônjuge?
Nem digo sobre a questão de ser realmente possível (ou prudente) depositarmos toda confiança e admiração que temos em outra pessoa, ainda que seja nosso próprio cônjuge – digo além: isto nem justo é. Não é ato de justiça, em primeiro lugar, para com Deus; em segundo lugar, não é justo para com nosso cônjuge; e, em último lugar, não é justo em relação a nós mesmos.
Não é justo em relação a Deus pois somente a Ele devemos o depósito de nossa total e irrestrita confiança e admiração. Não é correto para com o cônjuge pois é excessivo o peso colocado sobre ombros alheios. Veja que o sentimento de confiança e admiração totais pela pessoa do cônjuge é, antes de tudo, uma injustiça, pois o que se deposita em outro coração humano, vulnerável ao pecado e crivado de misérias, o fará, em algum momento, sucumbir, pois jamais conseguirá corresponder em perfeição ao que é esperado. Que pesada exigência! Que onerosa expectativa! O cônjuge sempre estará abaixo do que se espera dele.
Ademais, é injusto para conosco porque estamos ferindo a bondade que deveríamos exercer. Quem confia e admira totalmente o outro o faz porque, no fundo, espera dele apoio total e irrestrito. O que a pessoa não percebe é que ela não quer entregar nada, ou quer apenas entregar muito pouco, pois deseja receber tudo do outro e de si mesma pouco doar. O dolorido sentimento de confiança quebrada, de admiração conspurcada, não sangra na dimensão do amor real, que é o generoso esquecimento de si, que é a bondosa entrega do que se tem e do que se é. Onde dói de verdade é no amor-próprio.
Portanto, o problema da perda da confiança e da admiração no matrimônio se dá, verdadeiramente, na dimensão moral, e não na psicológica. É antes de tudo uma questão moral, em essência, e somente uma questão psicológica, acidentalmente. Aspectos como apego ansioso, neurose de autopiedade, feridas emocionais, autoimagem centrada na experiência de depreciação do valor de si etc. podem contribuir para intensificar o problema, mas não são sua verdadeira natureza. A natureza do problema é moral. Aliás, quase tudo que vejo em consultório começa pela dimensão moral.
