Ao ponto em que chegamos, temos duas etapas da formação da conduta que se referem ao não-eu: o efeito gerado pelas nossas ações e a posição nos Domínios do Ser a que tais ações nos subordinam. Conforme o homem, pela conduta, ao assumir tanto a responsabilidade exterior quanto a interior, intensifica objetivamente sua participação nos Domínios do Ser, manifestando-se, portanto, a si mesmo, tal manifestação baseia-se tanto numa representação de si pretérita quanto, pela própria forma de agir, tal representação de si sofre alterações.
Conforme exposto, toda real conduta humana sempre se dá a partir do estabelecimento de uma ligação entre o eu e o não-eu. O modo como agimos, o efeito que geramos no universo, a subordinação objetiva a um determinado Domínio do Ser em detrimento de outro, tudo isto significa uma manifestação daquele que age e, por conseguinte, uma reflexão desse fato objetivo (ação) num espelho subjetivo (a interioridade da pessoa), pois, ao agir e, principalmente, ao terminar uma ação, cada indivíduo toma (ou deveria tomar, pelo menos) maior conhecimento de si. Escreve Allers:
“Porque, se só podemos reconhecer, ou entender, o nosso próximo baseando-nos em suas ações e atitudes, só podemos, também, conhecer algo de decisivo sobre nós mesmos quando nos basearmos em nossa conduta real”. Rudolf Allers aponta aqui que a conduta, essa alteração que o eu promove no não-eu, gera uma responsabilidade subjetiva por parte de quem age, e tal responsabilidade subjetiva se manifesta como uma representação de si. Isto significa que o “eu” também terá, como fundamento de sua ação, a maneira pela qual se vê a si mesmo.
Em quarto lugar há, em toda conduta, uma expressão. Quando alguém age, tal pessoa se expressa, ou seja, há uma emanação cuja origem provém das condições psíquicas e subjetivas do sujeito por ocasião da ação mesma. Allers chama a essa etapa da conduta de “aspecto fisionômico”. Por fim, em quinto lugar, toda ação parte de uma decisão daquele que age – aqui, temos o elemento volitivo.
Os cinco movimentos da ação – efeito, posição, representação, expressão e decisão – podem ser separados nos seguintes membros: ao Eu pertence a decisão e a expressão, ao Não-eu a posição e o efeito. O elemento intermediário seria a representação. Para a avaliação caracterológica, a representação (a maneira idiossincrática de cada um ver a si mesmo, de definir-se a si mesmo e de se conferir valores e desvalores) seria, dos cinco movimentos, aquele pelo qual mais ficaria claro, ao observador, algo do caráter da pessoa analisada, uma vez que a representação é o elemento intermediário das conexões da conduta – “quer com o sujeito, quer com o objeto”. A representação, digamos assim, daria ao observador as primeiras evidências caracterológicas.
