É o matrimônio, nesta vida, o vínculo mais profundo entre dois seres humanos. Nele, homem e mulher são convidados a singrar em um oceano que se condensa e cristaliza numa gema de inabarcável valor: a alma do cônjuge, única e irrepetível. Por vezes, dentro dos mistérios de tão preciosa joia, sua essência oceânica reassume o aspecto selvagem, rugindo e turbilhonando em endurecidos contornos minerais. É preciso, pois, a coragem dos marinheiros a fim de que a jornada chegue a termo, em que ambos os navegantes se regozijem, em que ambos os cônjuges se alegrem e repousem para sempre no ninho desta ensolarada enseada a que cada coração humano aspira desde sua concepção nas águas do ventre materno, enseada que muitos chamam de Céus, onde habita o Rei dos Reis, junto ao Pai e ao Espírito Santo... sim, nestes Céus, cuja aurora interminável brota do cântico dos anjos e das doçuras do coração da Virgem Maria.

O sucesso no casamento não depende, ao fim e ao cabo, das circunstâncias exteriores, senão das atitudes e disposições interiores. É no âmago do espírito, em seus mais íntimos movimentos e manifestações, que a união de homem e mulher numa só carne alcança, em agradabilíssimas fragrâncias de incenso sacrificial, o olfato do Deus que se encarnou.

Em certo atendimento a casais que por estes tempos realizei, lamentava-se a esposa de que o marido, refratário ao reconhecimento de seus esforços domésticos, ao retirar da gaveta a camiseta escolhida para uso diário, amarrotava todas as outras, pois lhe era hábito escolher justamente a que jazia por baixo. Desde o início do casamento, amiúde repetiam-se tais episódios. A esposa, ao longo do tempo, passou a interpretar tais comportamentos do marido como descaso ao seu amor, o qual se manifestava no carinho e na diligência com que ela organizava as pequeninas coisas do lar.

Em relação ao marido, fi-lo compreender o quanto ofendia o coração da esposa a inconsideração do seu hábito, ainda que fosse completamente destituído de qualquer intenção de menosprezar o frutuoso amor que ela lhe devotava; por outro lado, mostrei à esposa que seu marido assim agia porque até então não tinha percebido que o cuidado com que organizava as camisetas dele era uma das singelas manifestações de atos de amor que ela lhe dedicava. A mulher entendeu que a intenção do marido não era a do menosprezo, e reconheceu que a ela também lhe faltou compreender ao outro. Desde então, o marido esmera-se em manter organizadas as gavetas de roupa, como retribuição às diligências domésticas da esposa – que brotam do seu carinho esponsal por ele.

Neste exemplo, encontra-se uma regra para casais: não existe ninharia na vida conjugal. Realmente não são as circunstâncias exteriores, mas as disposições interiores que farão com que haja verdadeira intimidade de coração entre marido e mulher. Se há verdadeira intenção de amar, os menores comportamentos são sacrificados pelo cônjuge. Pode-se, então, estabelecer uma regra para casais: quanto mais cresce em amor o casal, mais os menores comportamentos são modificados pelo outro. Consequentemente, quanto menor é o amor, mais idolatram-se e se enrijem as ninharias comportamentais. Este tipo de sacrifício interior, ainda que possa parecer pequeno, é sumamente agradável ao coração de Deus.