A procrastinação não é uma característica humana, propriamente, mas animal. A vida animal é um mero responder a estímulos ambientais. Os animais não planejam uma vida melhor, não sonham, não se desiludem, mas simplesmente agem segundo os estímulos que o ambiente oferece a eles. Porém, o ser humano também é constituído por uma parte animal, embora a animalidade não seja aquilo que nos especifica enquanto humanos propriamente falando.
Todavia, uma parte do fenômeno da procrastinação reside exatamente aí, na parte animal. Há uma estrutura mais primitiva em nosso cérebro chamada reptiliana, segundo a neurociência. Responsável por reações instintivas e reflexos, o cérebro reptiliano está ligado à sobrevivência da espécie, e de todas as regiões cerebrais é a mais primitiva, como já dito. Se estamos constantemente vestidos, nutridos, protegidos, se temos conforto, do ponto de vista da adaptação primitiva, não há nenhuma razão para mudança de hábitos. Nossa parte animal percebe que não há deficiências que levem a um perigo ou a uma ameaça de vida. Portanto, não há razão alguma, do ponto de vista animal, para se fazer um esforço para mudar a situação em que se está. A sobrevivência já está garantida e nada a ameaça.
Quem tem ou pode ter problemas de procrastinação é justamente aquela pessoa que está nutrida, alimentada, vestida, protegida e que não precisa fazer nenhum tipo de esforço físico para garantir a própria existência, uma vez que nada a ameaça seriamente. Isto, entenda-se bem, é como a parte primitiva do nosso cérebro analisa e interpreta a situação de nossa vida cotidiana. Do ponto de vista primitivo, a vida está 100% em ordem (água encanada, antibiótico, anestésico, comida acessível e abundante em supermercados, roupas confortáveis, automóveis etc. etc. etc.). E é justamente essa ordem, essa falta de ameaças, a origem da procrastinação.
Melhor ainda: a causa da procrastinação é o CONFORTO! E o conforto excessivo tira nossa face humana e nos rebaixa a uma dimensão meramente animal. Ou seja, o procrastinador vai, progressivamente, se reduzindo a um mero bichinho, pois somente age segundo a estrutura mais primitiva do cérebro, não estando empenhado em desenvolver-se enquanto ser humano. Para que nos desenvolvamos enquanto seres humanos, precisamos apostar naquelas qualidades que são especificamente humanas.
O que se pode fazer para vencer a procrastinação? Como dito, apostar em qualidades que são especificamente humanas, como:
Planejar ações em vista de objetivos superiores, não objetivos meramente orgânicos, mas objetivos humanos, que estão um pouco além do estímulo material imediato. Aqui, ainda nem se fala de objetivos transcendentais – ser santo, herói etc. Fala-se apenas de objetivos que vão um pouco além da materialidade mais bruta da animalidade. Ficar mais magro é um desses objetivos mais humanos, por exemplo, ainda que muito simples. Porém, para emagrecer é preciso, necessariamente, trazer desconforto à vida – passar fome, ou seja, comer menos e comer mais coisas saudáveis, pouco apetitosas, menos calóricas etc. Do ponto de vista do cérebro primitivo, isto é contraproducente para a sobrevivência. Passar fome é perigoso e ameaça a vida animal. Todavia, não compete ao cérebro primitivo compreender que podemos escolher passar fome e nos extenuarmos com exercícios físicos para alcançar um bem (uma bondade) que está um pouco acima da mera matéria imediata.
A procrastinação é uma luta entre a parte animal que busca manter o conforto e a parte humana, que busca bens para além da materialidade, que busca valores objetivos dentro da hierarquia do Ser, que busca realizar sonhos e projetos. É na parte humana que há em cada um de nós que está o reino de possibilidades que podem se tornar realidades. Isto não compete à parte animal, a qual somente responde a estímulos. É o lado humano que nos mostra em ainda não somos, mas quem devemos e podemos ser.
Para vencer a procrastinação, precisamos de propósito buscar o desconforto de forma diária e habitual, pois o objetivo da parte primitiva do cérebro é apenas assegurar a sobrevivência e a reprodução da espécie. Viver assim é viver como animal. Quanto mais buscamos o desconforto, mais educamos essa parte primitiva do cérebro e mais conseguimos superar os apelos das meras necessidades animais. O reino dos valores humanos, da vida propriamente humana, vai aos poucos se abrindo – através do desconforto diário e intencional.
