Vimos, no texto passado, que a timidez é o nome que se dá ao medo quando este exerce desordenada predominância na formação caracterológica do indivíduo. Toda inadequação diante da vida, conforme afirma Rudolf Allers, encontra sua gênese no medo, uma vez que este é o resultado de uma deficiência cognitiva gerada pela incerteza que permeia, naturalmente, a vida infantil. É a incerteza infantil mal resolvida (inclusive fortalecida por ações errôneas de pais, familiares e professores, as quais acabam por aumentar a percepção de medo na alma infantil) a responsável por levar as crianças a ampliar, através da cognição, os perigos da vida. As ameaças atingem proporções maiores do que real e objetivamente possuem.
Por isto, a tarefa primeira da educação infantil é, a despeito do conjunto circunstancial, engendrar na criança a consciência de segurança – bem entendido: segurança em si, segurança no próximo, segurança no mundo. Indivíduos seguros de si tendem a exercer, posteriormente, maior poder sobre o próprio ego. E o que é o ego? Resumidamente, o ego nada mais é do que a resposta que cada um dá a si mesmo diante da pergunta “Quem sou eu?”. O ego, portanto, é uma narrativa – sempre e apenas uma narrativa. Somente isto. Todavia, malgrado o conteúdo narrativo, ninguém é, de fato, o que conta de si. Somos, cada um de nós, um núcleo agente, único e irrepetível, a que os filósofos denominaram “pessoa” – substância individual de natureza racional.
O ego – essa circunscrita, sufocante e abafada narrativa que contamos de nós para nós mesmos – não deve jamais ser confundido com o Eu Substancial. O que você, leitor, é de fato? Uma identidade pessoalíssima – força operante, força causal, agente de transformação. Nenhuma pessoa humana é o próprio ego, ou seja, uma flutuante narrativa: cega, incompleta, limitada, insuficiente.
Vejamos o que escreve, na obra A Consciência de Si, o filósofo francês Louis Lavelle: “A consciência é uma pequena chama invisível e que tremeluz. Pensamos com frequência que seu papel é iluminar-nos, mas que nosso próprio ser está em outro lugar. No entanto, é essa claridade o que somos.” Somos, por conseguinte, consciência pessoal – foco de luz particular e irrepetível. Cada individuo humano é um ESPECÍFICO ato de Deus dotado de consciência, identidade, vontade e singularidade.
O essencial problema do medo como elemento formador do caráter é o encerramento de cada pessoa nessa narrativa a que a psicologia denomina de “ego”. Em razão disto é que os hagiógrafos das Sagradas Escrituras, movidos pelo Santo Espírito de Deus, aconselham-nos e admoestam-nos, exaustivamente, por mais de 300 vezes, a jamais ter medo: “não temais... não temais... não temais”. É preciso que nos libertemos do próprio ego a fim de que o núcleo pessoalíssimo que cada um de nós somos seja intensificado em sua consciência de si.
Provavelmente libertar o indivíduo do próprio ego, destes grilhões narrativos criados para si, é a tarefa mais importante do terapeuta ou do psicólogo. Inúmeros profissionais de saúde mental frisam a importância de ressignificar a própria história. Está muito bem. Entretanto, mais importante do que a ressignificação, é a condução do paciente a essa profunda consciência de que ele não é a própria história, de que ele não é o próprio ego, de que ele é, ao invés disso, uma força causal, capaz de operar responsável e livremente na realidade.
É muito importante que o paciente entenda que ele não é constituído da narrativa contada de si para si – ninguém é a morte de um ente querido, ninguém é a traição que sofreu do cônjuge, ninguém é aquele que foi demitido, ninguém é o defeito físico deprimente, ninguém é a doença fatal que vem sem sobreaviso, ninguém é o abuso sexual sofrido na infância, ninguém é o mau trato dos pais, ninguém é o crime que cometeu, ninguém é a rejeição dos próprios filhos, ninguém é a vítima impotente da sociedade, ninguém é a inocência aviltada, ninguém é uma psicopatologia qualquer, ninguém é o vício que possui, ninguém é fraqueza com a qual se interpreta a si, ninguém é o medo do colapso ambientes, ninguém é o medo do totalitarismo político-ideológico, ninguém é o bloqueio emocional, ninguém é o medo de não ser amado, ninguém é o cordeirinho dócil ou o incorrigível manipulador inescrupuloso etc. etc.
Por isso a PRIMEIRA função da educação é impedir que a formação caracterológica da criança seja erigida tendo como fundamento o medo, pois é justamente o medo enquanto traço essencial do caráter o elemento que fará com que a pessoa tenda, ao longo de sua trajetória existencial, a agrilhoar-se no próprio ego – nessa insuficiência narrativa, incompleta e mesquinha. O medo é o fator que impede a superação da vivência egoica.
É óbvio: o medo caracterológico gera a percepção de inferioridade de si, a qual, por sua vez, pela tensão mórbida aplicada na psique, demanda a construção de qualquer sistema de orientação existencial, já que a inferioridade amplia tremendamente a autopercepção de insuficiência de si diante das manifestações cotidianas e ininterruptas da realidade mesma. E em que se traduz tal sistema de orientação existencial? Na segurança gerada pela pretensa estabilidade narrativa do ego.
O medo impede que o indivíduo se liberte do ego e se compreenda a si como núcleo agente pessoalíssimo porque, ao fim e ao cabo, a verdadeira liberdade atrai, sobre cada um, a vasta amplidão da responsabilidade pessoal. O verdadeiro desagrilhoar-se da narrativa egoica fará com que o indivíduo, inexoravelmente, se torne incapaz de culpar o próximo pelas misérias e derrocadas existenciais que lhe acachapam a vida. Jamais será possível, novamente, debitar na conta do outro a responsabilidade das condutas e atos próprios. Jamais será possível, sinceramente, sentir o cálido conforto emocional da autopiedade, da lástima de si, da fuga da realização das possibilidades valorativas pela autoimagem de vítima inerme. Simplesmente não colará mais. O ser humano é o ser capaz de sempre decidir quem ele é.
