No texto passado, referi-me aos indivíduos cuja linha diretória de vida é uma mera ficção de superioridade pessoal. Tais personalidades acreditam que o sentido da vida é um sentido privado, no qual o outro não ocupa lugar algum de genuína importância. Aproximam-se dos problemas oriundos da ocupação e vocação, da sociedade e amizade, do sexo, casamento e amor, destituídos da real confiança e convicção de que as questões derivadas dessas três dimensões convocam o homem à cooperação com seus semelhantes.

Para Adler, todas as falências, tais como alcoolismo, prostituição, neuroses, psicoses, crianças-problema, perversões e suicídios, derivam da carência progressiva de companheirismo e interesse social – ou seja, da extrema deficiência daquilo que ele denomina de sentido de comunidade.

Adler insiste que a marca dos verdadeiros “sentidos da vida” devem ser, necessariamente, sentidos comuns – comunicáveis, capazes de manifestarem-se no tecido social, através da vocação, da amizade e do amor. Cada ser humano deve contribuir para o todo. O ensimesmamento caracterológico, a posição fundamentalmente ególatra do engrandecimento de si em detrimento do outro, denotam linhas diretórias responsáveis pela deformação do caráter, um estilo de vida, no mínimo, problemático, porque estéril.

“The man who meets the problems of human life successfully acts as if he recognized, fully and spontaneously, that the meaning of life is interest in others and cooperation” (A pessoa que enfrenta com sucesso os problemas da vida humana age como se reconhecesse, plena e espontaneamente, que o sentido da vida é o interesse pelos outros e a cooperação), escreve Adler. Tudo que tal indivíduo, cujo trajeto de amadurecimento progride normalmente, acaba por realizar é guiado pelo interesse em seus semelhantes.

Claro que Adler não está, aqui, a exercer o emprego duma tentativa de diluir ou dissolver o individual no social, algo tão próprio da ética espiritual, por exemplo, dos regimes totalitários. Criticá-lo em razão disto é despropositado, uma vez que, para eu realmente ter fecundidade biográfica e gerar obras de verdadeiro valor existencial e social, é necessário meu aprimoramento interior, é preciso aperfeiçoar meus talentos inatos, contemplar a irrepetibilidade de minha própria pessoa, e, é claro, friso eu, relacionar-se apropriadamente com Deus.

Adler não nega a dimensão vertical, aquela na qual o homem põe-se diante de si mesmo e diante do outro, compreendendo e amando ao outro na medida em que compreende e ama a si, e compreendendo e amando a si na medida em que compreende e ama ao outro. E isto inclui, é claro, o propriíssimo da dimensão vertical – a relação daquele indivíduo único e irrepetível com Deus. Adler jamais nega isto, tanto mais porque é impossível à personalidade desenvolver-se no vácuo do solipsismo. Sua tentativa não é a de achatar o homem numa horizontalidade asfixiante, mas de fazer com que a dimensão horizontal promova o verdadeiro manifestar da relação do homem com as realidades verticais ou transcendentais da vida.

Retorno, agora, ao ponto inicial do texto, após tal digressão. Aos que porventura desconheçam os textos adlerianos, é preciso que se atentem ao seguinte: para o autor, basicamente, há dupla possibilidade de desenvolvimento do caráter ou da personalidade – há distinção entre ambos, porém tratarei mais para a frente do caráter sob a perspectiva do psiquiatra Rudolf Allers. Ou a personalidade desenvolve-se numa linha diretória baseada no egocentrismo (donde surge, por exemplo, o caráter neurótico) ou numa linha diretória baseada no sentido de comunidade, responsável pelo progressivo amadurecimento saudável do indivíduo.

Até este ponto, chegamos ao seguinte lugar: a resposta que a pessoa dá e o modo como ela lida com os problemas e as questões oriundas das três dimensões (ocupação-vocação, social-amizade, sexo-casamento-amor) revelará o sentido que ela dá a vida: ou um sentido privado, o qual denota, por conseguinte, uma linha diretória egocêntrica, ou um sentido de comunidade, o qual denota, portanto, uma linha diretória saudável e madura. Porém, o que leva um indivíduo a uma ou outra linha diretória? É aquilo que Adler denominou de estilo de vida – tema da próxima publicação.