Como viemos estudando, a genuína ação humana será não só voluntária como também um elo, uma ligação entre o eu e o não-eu, com todas as cinco etapas ocorrendo simultaneamente: usando de minha faculdade volitiva, tomo a decisão de agir; tal decisão, orientada pela representação que tenho de mim para comigo mesmo, carrega consigo a expressão de certos conteúdos psíquicos individuais os quais, inclusive, se manifestam fisionomicamente, e a ação, além de intensificar minha subordinação nalgum dos Domínios do Ser, produz, ao mesmo tempo, um efeito no Não-eu, alterando-o. Porém, com base em que eu me decido pela alteração?

Claro, se decido intervir, agindo, pressuponho que minha ação gerará algum efeito no Não-Eu. O que me leva a decidir por tal alteração? A resposta é: um conhecimento. O que precede toda a esquemática da conduta descrita anteriormente é um conhecimento que tenho de uma situação concreta e de uma situação possível, que pode ser gerada (tornada real) a partir de minha ação. Qualquer ação é precedida de tal conhecimento – situação concreta, situação possível. Mesmo que de modo obscuro, como pontua Allers, é preciso um reconhecimento de que vale a pena fazer uma alteração.

Quando o desejo (baseado num conhecimento pretérito) de operar uma mudança é abafado ou impossibilitado, surge em nós aquilo que se chama insatisfação. Este conhecimento de uma situação concreta e de uma situação possível que pode ser alcançada através da ação é um conhecimento de tipo relacional, pois quem age somente o faz por uma comparação – ou seja, reconhece haver numa situação dada um gérmen ou uma potência de uma realidade possível que pode ser efetivada.

Então, o que precede qualquer ação é um conhecimento comparativo, e tal comparação tem de ser, necessariamente, uma comparação VALORATIVA. Para que minha ação seja especificamente humana, é preciso que eu reconheça que vale a pena realizar uma mudança. Porém, só julgo que é melhor operar a mudança porque acredito que aquilo que será modificado tem maior valor do que o estado atual da situação presente. Do contrário, por que agir?

Portanto, “a cada ação precede uma comparação, que é uma comparação de valor”, ensina Rudolf Allers, citando, inclusive, um axioma escolástico que afirma o seguinte: “Omne ens appetit bonum” (Todo ser aspira a um bem). Tal axioma justifica-se, também, em âmbito psicológico, pois este bonum, ou seja, este valor a que se aspira, mesmo que não seja um valor objetivamente válido para o contexto de determinada situação, assim é considerado, subjetivamente, pela pessoa que realiza a ação.

Allers explica que, quando o Não-Eu nos faz uma provocação, quando “não só toca a esfera de nossa pessoa, mas também a penetra, apresentam-se duas atitudes possíveis. Podemos recusar a exigência de ação que nos é imposta do exterior (como, por exemplo, quando dizemos: ‘Que me importa?’), ou podemos ‘tomar a coisa a peito’... Somente este ato de afirmação interior, esta espécie de incorporação da situação a realizar (ou melhor: do valor incluído nela, até então, sob a forma de possível), é a origem propriamente dita da ação.”.

A este ato de afirmação interior diante de uma provocação do Não-Eu, por meio do qual tomamos a peito uma situação possível contida numa situação concreta, ato precedido de um conhecimento de comparação valorativa, por meio do qual pretendemos realizar ou alcançar um valor avaliado como melhor do que outro, a este ato de afirmação interior Rudolf Allers chama de ATO DE APROPRIAÇÃO.

O ato de apropriação é, em verdade, a manifestação do caráter de uma pessoa. Como discernir o caráter de alguém? Como discernir o nosso próprio caráter? Como discernir, por parte do psicólogo, o caráter do paciente? A partir da observação qualitativa dos atos de apropriação, do modo como alguém interage com as provocações do Não-Eu, interação essa baseada num conhecimento de comparação valorativa.

Finalmente, que é caráter? Segundo Rudolf Allers: “Aquele lei de preferência dos valores, apoiado na qual um indivíduo humano orienta sua conduta, não é outra coisa senão o que chamamos caráter. O caráter de um homem é portanto uma forma de legalidade de sua conduta, qualquer coisa como uma regra, ou uma norma”. Portanto, o caráter de um homem é a norma de preferência valorativa que estabelecerá a qualidade dos modos de ação desse homem com o Não-Eu. A toda ação, precede uma comparação valorativa, a qual é baseada no caráter daquele que age, que se constitui de uma lei de preferência dos valores. Ou seja, toda ação humana tem como base uma norma de valores. Quanto mais o caráter de alguém tende à normalidade ao invés do desvio, mais esse caráter que a pessoa manifesta através dos seus atos de apropriação se amoldará, então, aos valores objetivos da realidade.