Como rápido preâmbulo ao tema, ofereço sucinto relato de algo que percebi ao longo dos cinco anos de graduação em psicologia aqui da PUC de Londrina: não houve uma única aula sequer em que a realidade do amor foi analisada com sério embasamento filosófico. Digo isto porque muitos pacientes que atualmente vêm a mim sofrem, justamente, porque desconhecem a hierarquização do amor. O psicólogo poderia e deveria auxiliar a pessoa que lhe vem em sofrimento em decorrência disto, todavia precisaria ter o mínimo de discernimento filosófico sobre o tema; não obstante, a temática do amor nunca é seriamente explorada numa graduação de psicologia. Quando professores ou alunos o fazem, é sempre com o pior e com o mais brega reducionismo materialista que grassa pelos galinheiros acadêmicos hodiernos.
Muito em voga estão hoje em dia os tais dos “relacionamentos abertos”. Encontrei pelas cloacas instagranianas diversos reels em que “trisais” e até “quadrisais” juram de pés juntos que todos ali se amam em verdade e em espírito; segundo eles, os antiquados mortais que ousam afirmar que isto não é amor são apenas pessoas movidas pelo combustível do amargor preconceituoso e da incapacidade odienta de adequar-se aos luminosos tempos presentes. Indubitavelmente, são criaturas superiores – de um lancinante egoísmo superior.
Não pode haver amor em relacionamentos abertos pela própria natureza do fenômeno. O amor possui três causas – bondade, conhecimento e semelhança – e quatro efeitos: unidade, coabitação, êxtase e zelo. Analisemos a primeira causa do amor: sua bondade.
É impossível ao ser humano, pela sua própria estrutura ontológica, não desejar o bem. É a presença do bem que provoca o amor, pois o bem é amável por natureza. Se é impossível ao homem não desejar o bem, e o bem, como dito, é amável por natureza, logo é impossível ao ser humano não amar. O problema concreto é amar de forma ordenada, reconhecendo o bem enquanto um bem realmente moral. É o desejo do bem que manifesta no coração humano o movimento do amor, o qual nos faz buscar o bem desejado e que nos traz uma perfeição que até então não tínhamos. Se se tem amor por uma pessoa, é porque o intelecto de quem ama apreende a presença de bens específicos que causam agrado, admiração, senso de justiça, gratidão ou o que quer que seja naquele que ama.
A segunda causa do amor é o conhecimento. É impossível que alguém ame aquilo que lhe seja absolutamente desconhecido. Para que a mulher ame a seu marido é preciso que ela, por óbvio, o tenha conhecido antes. Todavia, se de início é o conhecimento que provoca o amor, ao longo do tempo o mesmo amor leva o amante a um conhecimento mais profundo e intuitivo daquele ser amado em específico, porquanto a inteligência e a vontade daquele que ama vão progressivamente desaguando no objeto de seu amor. Inclusive, como aponta o bispo Fulton Sheen, essa é uma das razões psicológicas do porquê pessoas que se amam verdadeiramente se abstêm não só de discussões vulgares sobre sexo, senão também de falar aos outros do próprio amor recíproco, já que o amor entre ambos neles gerou uma espécie de conhecimento intuitivo e incomunicável a terceiros.
Todos, creio, já ouviram que os opostos se atraem. Mas isto não é verdade, pois a terceira causa do amor é a semelhança. É a semelhança entre amante e amado o que atrai, jamais a dessemelhança. Há dois tipos de semelhança entre pessoas. A primeira é a de qualidade, pela qual eu amo no outro a qualidade que apreendo em mim e vice-versa – um mútuo amor pela literatura, por exemplo. É a semelhança enquanto terceira causa do amor que leva duas pessoas ao amor de amizade, pelo qual eu desejo ao amigo o bem que desejo a mim mesmo. Já o segundo tipo de semelhança é quando alguém tem em potência a qualidade que o outro tem de fato, ou seja, eu amo no outro aquilo em que eu mesmo posso me tornar, como se o amor ao ser do outro me ajudasse a tornar-me o que posso ser.
Além das causas do amor, temos os seus efeitos. O primeiro efeito do amor é a unidade. O amor é princípio que unifica aquele que ama com o ente amado. Quem ama é tomado por um inelutável desejo de ser um só (e não dois, três ou quatro) com o ser que se ama. Deriva do fato de que um dos efeitos do amor é a unidade que quem ama anseia, inclusive, tomar os sofrimentos todos do amado para si. Quantas vezes não ouvimos um marido ou uma esposa dizer que, se pudesse, sofreria as dores de seu cônjuge no lugar dele. O próprio Cristo a tal ponto amou a criatura humana a qual criou que se identificou com ela e a ela se uniu fazendo com que Sua Pessoa Divina se encarnasse e assumisse natureza humana, a fim de padecer a Paixão e nos remir de todos os pecados.
O segundo efeito do amor é a coabitação. Aqueles que se amam inerem um no outro, ou seja, passam a existir um no outro. É por isso que quando alguém perpetra o mal contra quem amamos, sentimos a ofensiva em nós mesmos. O que se ama está dentro de nós, existe dentro de nós mesmos. É pelo efeito da coabitação que aqueles que amam jamais pedem de volta o que foi oferecido. O amor nunca toma de volta aquilo que dá. Escreve Fulton Sheen: “Essa inerência mútua, como segundo efeito do amor, acrescenta algo à unidade do casamento. A união da carne torna-se então união da mente e do coração... O amor que existe apenas pela carne é tão frágil como a própria carne, mas o amor que existe graças a uma união espiritual e que se baseia no amor de um destino comum é verdadeiramente aquele que só a morte pode desfazer”. Portanto, os que se amam assumem o destino do ser amado para si, em completude.
O êxtase é o terceiro efeito do amor, que significa sair de si mesmo em direção única e total ao amado. É pelo êxtase que as situações mais adversas que um casal enfrenta são superadas. Há duas etapas do êxtase: a da carne e do espírito. Este primeiro é o arroubo dos apaixonados, e ainda não é o verdadeiro êxtase, pois este tem de ser provado através da tormenta, até superar o frêmito da juventude. O êxtase real vem com a idade. Escreve Fulton Sheen: “No primeiro êxtase, um ser procura receber tudo aquilo que o outro pode dar. No segundo, o ser procura tudo dar a Deus. Se o amor for identificado com o primeiro êxtase, procurará sua duplicata na outra pessoa, mas, se ele se identificar com o amor duradouro e unificador, procurará aprofundar-se em seu próprio mistério”. O coração daquele ser humano específico é o mistério no qual aprofundar-se. Daquele, não de dois ou mais.
Por fim, o quarto efeito do amor é o zelo. É próprio dos seres que se amam excluir tudo aquilo que repugna ao próprio amor, inclusive a indevida intromissão de terceiros. Pelo amor, desejamos nos unir ao ser amado, nele coabitar, ir em direção a ele e por ele zelar. O zelo, inclusive, envolve fecundidade e fidelidade: “devoção à pessoa amada e prolongamento desse amor na família”. Logo, o amor anseia por estruturar-se numa família sobre a qual zelar. Seria falta de zelo a multiplicidade paterna e/ou materna, pois feriria os três efeitos anteriores do amor.
Pelas três causas do amor e pelos quatro efeitos dele, podemos compreender o porquê inexiste amor verdadeiro em relacionamentos abertos. Pela bondade causal do amor, inclinamo-nos para o ser amado como o bem que deve ser zelado acima de todos, desde que este zelo não fira a ordem moral. Porque o conhecimento é causa do amor é que o amado, pelo intelecto, cujo objeto formal é a verdade, e pela vontade, cujo objeto é o bem, inclina-se totalmente ao ser amado, buscando se assemelhar a este ser único e irrepetível pela união com ele e somente com ele, a qual promove a recíproca existência coabitativa de um no outro e os êxtases provenientes dessa unidade. É coração inclinando-se totalmente a um outro e único coração. O desvio disso é defendido porque cada pessoa é portadora de consciência moral, e é insuportável ao homem, pelo egoísmo e pela vaidade, admitir os erros grosseiros pelos quais conduziu sua vida inteira.
