Rudolf Allers, em seus textos, alerta pais e educadores a respeito dos limites que devem ser impostos à severidade no trato com as crianças. Em verdade, a severidade nunca se mostrou benéfica para a formação do caráter de ninguém – e as pessoas detentoras de um caráter verdadeiramente maduro e que, quando crianças e adolescentes, estiveram sob o jugo de severa educação, conquistaram a maturidade a despeito da severidade, e não por causa dela.
Uma das finalidades de se educar alguém é o ensino da conformação das atitudes de valor subjetivas dessa pessoa aos valores objetivos da realidade. Para que isto se dê com eficiência, a severidade deve ser maximamente evitada, seja a que se manifesta em castigos corporais, seja a que se manifesta em exigências demasiado árduas ao educando e que lhe acabrunham o ânimo. Severidade em excesso gera pusilanimidade de espírito. Isto é fatal para o desenvolvimento do caráter infantil. Segundo Allers, a severidade na educação gera duas consequências:
1) amplia ainda mais a natural distância entre filhos e pais e
2) conduz a uma progressiva desatenção, por parte dos educadores, das características individuais da criança.
O adulto de trato severo com os pupilos tem muito má resolvida dentro de si a compreensão da verdadeira autoridade, a qual, por essência, existe para aqueles sobre os quais deve ela recair. Por exemplo: o Vigário de Cristo sobre a terra, o Papa, recebe o título de servus servorum Dei – o servo dos servos de Deus. O poder da autoridade emana não da pessoa que ocupa um cargo, mas do cargo em si, e acarreta uma série de deveres áridos e penosos por parte de quem o exerce. Jamais deve a autoridade elevar-se enquanto absoluta, porque degenera em tirania.
A palavra “autoridade” vem do substantivo latino “auctor”, o qual, por sua vez, vem do verbo “augere”, que significa “fazer crescer, aumentar, multiplicar”. Se, no fundo, a autoridade tem como finalidade o serviço ao próximo, ou seja, fazer com que as vidas humanas cresçam, se desenvolvam e frutifiquem, o educador deve imbuir-se de genuína autoridade no trato com os pequenos. E por quê? Porque ainda não compete à alma infantil o sentimento de culpa pessoal e as ideias acerca da responsabilidade individual. Por isso, a irrupção brutal de uma autoridade desordenada impede que a criança desenvolva um correto senso do que é, de fato, a autoridade, assim como da sua imprescindível importância para a ordenação interior de cada um e, em consequência, da progressiva ordenação da sociedade.
Allers observa que o único meio de construir uma verdadeira noção de autoridade na alma da criança é pelo amor. “Só a autoridade que deriva do amor é uma autoridade propriamente dita; só ela pode reclamar, como fundamento, o amor de Deus.” O excesso de severidade origina-se de uma falsa ideia de autoridade. A raiz da conduta do educador severo jamais é beneficiar os educandos, mas somente exaltar as pretensas glórias do próprio eu. Todavia, no fundo, qualquer exaltação de autoridade é proveniente da fraqueza egóica. Rudolf Allers é cirúrgico: “Fazer o forte é um processo dos fracos”.
O educador cuja concepção de autoridade é errônea se inclinará, naturalmente, ao uso de excessiva severidade com os educandos, e a severidade desmesurada tem como consequência o aumento da insegurança na criança, não só porque amplia-se ainda mais a distância entre educando e educador, senão também porque a severidade desproporcional lesa profundamente o sentimento de valor próprio da criança. É, como já dito em outras publicações, uma vivência de depreciação, que se torna mais intensa por causa dos traços fundamentais da existência infantil responsáveis por conduzir os pequenos ao sentimento de desvalor – a pequenez da criança, sua fragilidade corporal, a incerteza do seu conhecimento e a impressão de imprevisibilidade do mundo.
Quanto mais severidade, maior a percepção de distância da criança entre ela e os adultos que a circundam, uma vez que aqueles aparecem a esta “revestidos de uma auréola de onipotência e onisciência. Por isso já se sente inclinada, por si mesma, a duvidar da possibilidade de atingir, jamais, tal elevação”, alerta Rudolf Allers. E é justamente essa percepção da criança de que ela jamais se elevará à onipotência adulta o elemento que a fere no sentimento de valor próprio.
Em razão disso, Allers aconselha os pais e educadores a destruir, desde cedo em seus educandos, a concepção infantil de que as limitações da vontade pessoal somente estão circunscritas a elas - crianças. É preciso perceber que é próprio da vida infantil a tendência a idealizar. Todavia, quando as crianças, por si mesmas, descobrem que também os adultos estão submetidos à limitação de sua vontade pessoal, eles (os adultos) acabam por perder importância aos olhos delas. Perdendo importância, não mais estão aptos a exercer a verdadeira autoridade, a qual tem como base o amor. Então os educadores, numa atitude de compensação, usam de excessiva severidade, a qual gera, posteriormente, adultos de ânimo pusilânime.
